Eis mais uma aquisição que fiz no miau. Comprei uma Sega Saturn. Como ela não vinha com gamepads, tive que comprar um também no miau. Fora umas pequenas escoriações, de resto ela está a funcionar bem, e com bom aspecto. Confesso que me senti indeciso se a compraria ou não. Mas como estava a um preço acessível, e tinha a possibilidade de me ser entregue em mão, lá a comprei. Confesso que foi mais no espírito colecionista do que outra coisa, pois tirando três ou quatro jogos que gostaria de arranjar, não me vejo a investir muito nela. Nunca tinha jogado nela, embora já a vi em acção na TV. Comprei um joguito numa loja de compra e venda em Aveiro, para testa-la. Foi o Dragon Ball legends. A boa noticia é que a consola estava a funcionar bem, a má é que nem gostei por ai além do jogo. Acho que a Saturn tem melhor para oferecer. Uma coisa que me surpreendeu na consola foi o facto de ela possuir uma memória interna que permitia guardar dados de jogos, embora a sua capacidade fosse baixa e exigia uma pilha de litio, senão os dados perdiam-se. Sinceramente não sei se a Playstation 1 tinha memória interna que permitisse gravar dados dos jogos.
Também vendia-se um cartão de memória externo, de maior capacidade, mas surpreendentemente também precisavam de pilhas de litio para funcionar. Posteriormente saiu no mercado um cartão de memória que já dnão precisava de pilhas para cumprir o seu papel...ah, é verdade...a ultima vez que vi um cartão de memória para a Saturn a venda no miau, pediam a módica quantia de 40¤ por ele...
Saturn, era o nome da consola que fez soar a alvorada das 32 bits. Tinha a responsabilidade de dar continuidade ao legado da sua bem sucedida antecessora, a Mega Drive. Teve como adversárias a PS1 que se viria a ser no meu entender uma das 5 consolas mais carismática da história, e a Nintendo 64. As coisas não correram da melhor forma para a Saturn. Apontada por muitos como causadora de todos os males da Sega, a sua concepção foi muitas vezes criticada, mas a verdade é que essa consola é amada por todos os gamers que a possuiram e que tiveram a felicidade de jogar nela.
Mas o que teve afinal por detrás do insucesso da Saturn? Será que tudo na Sega Saturn se resume mesmo à palavra insucesso?!
Comecemos por abordar a sua concepção. A era das 16 bits estava a dar a ultimas. Foi uma era que teve por protagonistas 4 consolas. Eras elas a PC Engine/Turbo Graph, Neo Geo, Mega Drive/Genesis e Super Nintendo. Esta última já começava a mostrar as tendências que iam ocorrer marcar as 32/64 bits... A tecnologia super FX aplicada nesta consola, permitiu criar os primeiros jogos com gráficos poligonais como Star Fox. e Doom. Só que a Sega infelizmente não soube interpretar esses sinais. E assim a concepção da Saturn foi com o objectivo de ser a melhor plataforma para correr os jogos em 2D. Mas o problema é que a concorrência já pensava e focava-se no 3D. A Sega tinha que fazer alguma coisa, ou arriscava-se a ficar para trás em relação à concorrência. Assim alterou-se as especificações técnicas do Saturn, adicionando novos processadores. Agora a Saturn possuía maior capacidade poligonal, e de processamento de gráficos 3D, estando assim pronta a competir com a Playstation 1 e com a Nintendo 64...pelo menos em teoria! Só que isto de alterar as especificações de um produto a meio (senão no fim!) do processo de concepção e em cima do joelho, acaba sempre por trazer complicações. Ora bem, a adição de mais processadores tornou a arquitectura da consola tão complicada, que programar para ela tornou-se uma tarefa difícil. Na verdade era mais difícil, mais caro, e mais demorado programar para a Saturn do que para a Playstation 1...o resultado foi cada vez mais Third Parties a virarem para a Playstation 1 e a votarem a Saturn ao ostracismo. A título de curiosidade, a Saturn devido a sua arquitectura complexa, é provavelmente o sistema mais difícil de emular, não conhecendo até a data emuladores eficientes da Saturn. Já existem emuladores eficientes quer da Playstation 1 e até da Dreamcast, para PC.
Mas os problemas da Saturn não tinha só haver com a fase de concepção problemática que teve. Também a herança deixada não pela Mega Drive em si (que deixou um excelente legado!) mas sim pelos periféricos dela Mega CD e sobretudo o anedótico 32x, complicou e de que maneira a sua vida. Constituiram uns autênticos desperdícios de preciosos recursos financeiros da Sega, e o 32x foi o maior equivoco alguma vez praticado pela Sega. No caso do Mega CD, a tecnologia do CD ainda estava muito verde. Era um periférico caro, e os jogos tinham loadings bastante longos. No que toca ao 32X, primeiro não lembraria ao diabo estar a desenvolver um periférico para fazer a Mega Drive arranhar as 32 bits e ao mesmo tempo estar a desenvolver uma consola de 32 bits. Qualquer um de nós como pessoas minimamente inteligentes que somos, preferimos, uma consola de 32 bits de raiz, a um periférico que arranha os 32 bits. Agora imaginem como se sentiram aqueles que compraram o 32x e vieram a descobrir que a Sega ia lançar uma consola de 32 bits. As únicas palavras que me ocorrem para descrever o que sentiram são as palavras “defraudados” e “enganados”. Para além disso quanto os dois periféricos se juntam com a Mega Drive/Génesis, se pensarem que cada um desses periféricos tem um alimentador para ligar à corrente e cada um desses periféricos tem que se ligar a Mega Drive através de cabos, o resultado é uma teia de fios e fichas tal, que se torna completamente impraticável montar o conjunto, e o aspecto é horrivelmente inestético, transformando um aparelho com um design bonito, como é qualquer um dos modelos da Mega Drive, numa espécie de Frank ´N Stein das consolas. A Mega Drive não merecia isto...Os jogos que eram de qualidade para estas plataformas (ou semiplataformas!...ou meias plataformas!) contavam-se pelos dedos de uma mão. Sonic CD para a Mega CD, e para o 32x apenas se destacam o Knuckles Chaotix, e o Colibri. O resto foi um deserto. Ports da Mega Drive, ou jogos mauzinhos. Estes fracassos abalaram a confiança dos consumidores na Sega, e quem começou a pagar o pato dessas asneiras foi a Saturn.
Como se tudo isto não bastasse, também a estreia da Saturn no mercado não foi a mais feliz. A Sega resolveu lançar a consola com 6 meses de antecedência, nos estados Unidos, quando as lojas ainda não estavam familiarizadas com a Saturn , e havia ainda poucos disponíveis, e para piorar ainda mais as coisas, a consola era lançada a um preço muito alto(cerca de 400 dolares). A Sony manteve o seu prazo de lançamento e a sua consola ia custar menos 100 dólares.
Mas nem tudo foi triste na história da Sega Saturn. Apesar de em termos globais o desempenho no mercado não ter sido o esperado uma vez que Playstation 1 venceu a batalha, e a Nintendo 64 ficou em segundo lugar, curiosamente a Saturn foi a consola da SEGA mais bem sucedida no mercado japonês. Conseguiu manter a liderança à frente da Playstation 1 até ao lançamento do Final Fantasy VII para a mesma consola, acabando por ficar em segundo lugar no Japão, à frente da própria Nintendo 64. Quantas consolas da Sega conseguiram o feito de ficar a frente de consolas da Nintendo no mercado nipónico?!
Não obstante a ultrapassagem em volume de vendas de Playstation 1, devido ao efeito FFVII, a Saturn continuou a vender-se bem, e competia com a Playstation 1 em termos de volume de vendas de jogos para a consola. Este sucesso no Japão explica-se por um lado devido a uma boa campanha de marketing. Quem não ouviu falar de Segata Sanshiro? Foi não só ícone do marketing da Saturn, como do próprio Japão, dada a popularidade que atingiu. Ele era um eremita que vivia na montanha e fazia da Saturn uma causa, e jogar nela um modo de vida. Ele andava pelo Japão para garantir que todos jogavam na Sega Saturn, desse lá para onde desse! Se juntarmos à boa campanha de marketing uma longa série de títulos que só saíram em terras Nipónicas, e muitos deles provavelmente teriam ajudado nas vendas da consola no ocidente. Basta citar o responsável da Sega na altura que dizia que os RPGs não se vendiam bem no ocidente...depois, foi ver e assistir ao sucesso estrondoso do Final Fantasy VII, e muitos outros RPGs que existiam no Saturn, e que chegaram ao ocidente por via da...Playstation 1!
Se as coisas não correram nada bem no mercado ocidental, pelo menos em Portugal ela não passou despercebida. Quem não se lembra de um programa de TV chamado Cibermaster? Tratava-se de um concurso onde os concorrentes representavam rebeldes humanos que tinham que libertar o mundo do domínio das máquinas que estavam sobre o comando de Cibermaster. A luta contra as máquinas resumia-se a jogar na Saturn jogos como Sega Rally, Virtua cop, Virtua fighter, etc. A Saturn conseguiu os seus momentos de glória em Portugal, mas não foi o suficiente para evitar o reinado e domínio da Playstation 1 também em terras lusas.
Para a história fica uma consola, que apesar de todas as contrariedades que enfrentou, conseguiu deixar a sua marca, nos videojogos. Os fãs ainda recordam jogos como Sega Rally, Virtua cop, Virtua Fighter, Nights into dreams, e tantos outros. Se a consola teve muitos problemas, a qualidade dos jogos da sua biblioteca, não foi certamente um deles. Depois de ver o seu desempenho no mercado japonês, fica a sensação que apesar de tudo, foi uma consola que podia ter dado muito mais, se tivesse havido uma estratégia de comercial decente.